
Mato Grosso e Goiás surgiram nas primeiras décadas do século XVIII com a exploração do ouro. Rapidamente, o imenso e inóspito sertão, povoado por vários grupos indígenas, recebeu aventureiros, padres, oficiais da coroa lusa, escravos, dentre outros contingentes humanos. Os povos indígenas foram dizimados, travaram guerras com os colonizadores, escravizados e incorporados à sociedade colonial. Pequenos povoados foram transformados em paróquias do Bispado do Rio de Janeiro, municípios foram erguidos conforme as leis da Monarquia lusa, com a prerrogativa de certo grau de autogoverno na justiça cotidiana e no mercado local.
O comércio ocorria por via terrestre ou fluvial. Enquanto Goiás escoava sua produção de gado para a Bahia, Mato Grosso, em meados do século XIX, se aproveitava da navegação pela bacia Platina e negociava com os países vizinhos. Contudo, a Guerra da Tríplice Aliança levou ao bloqueio dessa via e a província de Mato Grosso foi invadida. Ao final da Guerra e com a reabertura da navegação, as relações comerciais foram retomadas e casas comerciais surgem na província movimentando o comércio. No começo do XX, a criação da estrada de ferro provoca outras movimentações.
Nos anos de 1930, quando Getúlio Vargas assumiu o poder, a Marcha para o Oeste acarretou na aplicação de um modelo chamado de modernização conservadora. Nas décadas seguintes, esse modelo se consolidou e, ao final do século XX, as máquinas tomaram o lugar do boia-fria; ao latifúndio monocultor, agregaram-se modernos complexos industriais atraídos por incentivos fiscais, mão-de-obra e terra baratas. Esse cenário propiciou a instalação de grandes empresas alimentícias que viram nas pequenas e médias cidades do Centro-Oeste a oportunidade para aumentar seus lucros retirando-se de estados como São Paulo.
As transformações que ocorreram em três séculos são inegáveis e significativas. No final do século XX e início do XXI, o Centro-Oeste tornou-se o principal polo brasileiro de exportação de commodities como carne, milho, soja, celulose, sorgo e feijão alcançando mais de vinte países e se concretizando como uma das principais regiões de agroindústria do planeta. Não há, portanto, como negar a internacionalização da economia com seus genuínos traços do capitalismo moderno.
Como resultado, intensificou-se a expropriação de povos indígenas de seus territórios; a participação da agricultura familiar nesses três estados é uma das menores do país; já a concentração de terras e os índices de violência no campo são disparadamente os mais alarmantes do Brasil. No Mato Grosso do Sul, terceiro estado no Brasil em número de habitantes indígenas, estão assentadas onze etnias, é um dos primeiros colocados na violação dos direitos desses povos.
Nas capitais, além do preço alto dos alimentos básicos, a desigualdade se evidencia na profusão de ocupações irregulares próximas aos condomínios verticais de alto padrão. A 50 quilômetros de Brasília, que detém uma das maiores rendas per capita do Brasil, está a favela Sol Nascente – maior do Brasil conforme dados do IBGE de 2022. Tal como as demais regiões, o Centro-Oeste possui peculiaridades quanto ao acesso à educação, saúde, moradia, direitos civis e sociais. Cabe a nós, pesquisadores, conhecer melhor os mecanismos que estruturam esses e outros aspectos de nossa sociedade.
