
Dados recentes apontam que o estado de São Paulo reúne quase 22% da população brasileira, ou seja, cerca de 46 milhões de habitantes (IBGE, 2025) e é responsável por aproximadamente 32% (3,44 trilhões de reais) do Produto Interno Bruto nacional (IBGE, 2023), configurando-se como o principal polo econômico do país. Essa posição, contudo, resulta de um processo histórico relativamente recente. Durante o período colonial, o território paulista ocupava posição periférica, ainda que estratégica no contexto das disputas entre as Coroas Ibéricas na América meridional.
No decorrer dos séculos XVI e XVII, a população de portugueses manteve-se rala e dispersa, sendo o apresamento e escravização da população indígena sua principal atividade econômica.
A escassa população reinol, por outro lado, estabeleceu um processo de mestiçagem com as populações nativas, que exerceu papel crucial para garantir a colonização lusa e a ocupação dos territórios. Longe de ser uma estratégia harmônica, pelo contrário, a mestiçagem biológica e cultural se deu sob a égide da violência e da dominação, reforçando hierarquias sociais duradouras. A presença em larga escala da população de origem africana se deu mais tardiamente, a partir da segunda metade do século XVIII e alcançou maior expressão ao longo do XIX, com a expansão da cafeicultura.
De fato, foi somente no início do século XVIII (1709), por conta da descoberta das minas, que a administração portuguesa criou a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, cujos limites abrangiam um imenso território que confrontava, segundo Roberto Simonsen (1937), ao sul e a oeste com as terras da Coroa de Espanha, a leste com o oceano, ao norte com as Capitanias do Grão-Pará e Maranhão, Bahia e Rio de Janeiro.
Contudo, o extenso espaço da capitania paulista foi sucessivamente desmembrado: em 1720 com a criação da Capitania de Minas Gerais; em 1738 perdeu a porção sul (ilha de Santa Catarina e continente de São Pedro para a jurisdição da Capitania do Rio de Janeiro); em 1748, sofreu o seu maior desmembramento, com a criação das Capitanias de Goiás e Mato Grosso. Como se isso não bastasse, a Capitania de São Paulo perdeu sua autonomia ficando subordinada ao Rio de Janeiro, e sua autonomia foi restaurada somente em 1765. A configuração territorial próxima à atual consolidou-se apenas na segunda metade do século XIX, após sucessivas perdas de jurisdição e redefinições administrativas.
A partir de meados do século XVIII, observa-se uma inflexão econômica com a introdução da produção açucareira, inserindo São Paulo no circuito do comércio internacional, especialmente no contexto favorável decorrente da revolução do Haiti (1791), um dos principais produtores de açúcar. Paralelamente, a capitania beneficiou-se do dinamismo da economia mineradora, tanto por conta do comércio de muares e gado, como por conta de caminhos que posicionavam estrategicamente a capitania. Esse processo refletiu-se no crescimento populacional: de poucos milhares de habitantes no final do século XVI, a população alcançou cerca de 80 mil em 1765 e quase 200 mil em 1808. No ano da independência (1822), ultrapassava 240.000 habitantes, representando 5% da população do Brasil.
No século XIX, a expansão da cafeicultura redefiniu profundamente a economia e a demografia paulista. Em 1872, a população aproximava-se de 964 mil habitantes, correspondendo a cerca de 10% do total nacional. A crise do trabalho escravo e a necessidade de mão de obra estimularam políticas de imigração, inicialmente pontuais e, posteriormente, massivas e subsidiadas. Esse movimento intensificou o crescimento populacional e a diversificação social, no período republicano, com a população atingindo mais de 5 milhões em 1920.
A expansão da economia cafeeira foi decisiva nesse processo, pois a riqueza gerada foi investida na construção de ferrovias e no subsídio para a vinda de imigrantes. Nos meados do século XX, São Paulo atraía também fluxos de migração interna (especialmente da região Nordeste). A expansão industrial também foi tributária dos recursos advindos do café. Em tempos mais recentes, São Paulo tem se colocado como importante centro de produção tecnológica e de serviços. Ao longo do século XX, a malha ferroviária foi substituída pelas rodovias e infraestrutura aeroportuária.
A trajetória de São Paulo é marcada por transformações estruturais e populacionais que estimularam grande diversidade, mas também consolidaram disparidades que caracterizam a população e o espaço paulista, cujas raízes remontam ao período colonial e persistem na contemporaneidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LUNA, Francisco Vidal. História econômica e social do Estado de São Paulo: 1850-1950. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019.
MARCÍLIO, Maria Luiza. Crescimento demográfico e evolução agrária paulista: 1700-1836. São Paulo: HUCITEC/ EDUSP, 2000.
https://www.scielo.br/j/anaismp/a/6CWPyVzy9LWhJSNqHXmwxWy/?format=html&lang=pt
