
O Rio de Janeiro tem uma longa história de desigualdade. Nos séculos XVI e XVII, a capitania não congregava nem 15 mil habitantes em seus engenhos de cana e demais plantações com mão de obra basicamente indígena. Governada pela nobreza da terra, não havia um corpo mercantil sólido. A cidade do Rio era um esteio portuário também com funções políticas: pelo seu porto, acessava-se a prata e fornecia-se cativos africanos ao Potosí. Politicamente, resguardava-se o Atlântico Sul português de investidas inimigas. Em meados do século XVII tropas cariocas atravessaram o Atlântico para retomar Angola ocupada pelos holandeses.
A passagem do século XVII para o XVIII foi um momento de mudanças irreversíveis por causa das descobertas de metais preciosos em Minas Gerais. Toda a estrutura populacional, social, política, econômica e cultural sofreu profundas transformações. Demograficamente, em 1687, a cidade do Rio de Janeiro contava com oito mil habitantes, mas começou a receber populações africanas em volume jamais visto. Com o impacto do tráfico de cativos africanos, a cidade nunca mais foi a mesma. O grosso dos cativos desembarcados se dirigiu para Minas Gerais e o circuito de mão dupla Rio-Minas converteu-se, desde então, no maior fluxo de riqueza e de pessoas do Império Português.
O panorama populacional e social setecentista também se alterou para além da predominância de mão de obra escrava de origem africana. A intensificação da mercantilização do Império fez emergir com força os comerciantes que, de meros mercadores e/ou representantes de grandes negociantes reinóis, passaram a homens de negócio de grosso trato com atuação em toda a monarquia pluricontinental portuguesa, rivalizando e/ou se aliando com antigos nobres da terra conquistadores, afeiçoados ao domínio territorial. Integradas aos mercados mineiros, áreas agropastoris proliferaram, a exemplo da capitania de Paraíba do Sul (Campos dos Goytacazes etc.).
A decadência da mineração a partir, aproximadamente, dos anos 1760 não significou a decadência das atividades produtivas e mercantis e do fluxo de pessoas, pois ao esgotamento dos veios mineradores seguiu-se o reordenamento econômico. Em fins dos Setecentos, o Rio de Janeiro já era a principal praça mercantil do Império Português e seu porto o principal polo de desembarques de cativos. Então, comerciantes ricos financiavam a monarquia, postulavam a governança imperial, compravam panos da Índia conduzidos a Angola para a aquisição de escravos e monopolizavam negócios urbanos.
Estavam no topo da pirâmide social da desigualdade, enquanto a antiga nobreza da terra ia aos poucos, até chegar o século XIX, se transformando em capitães de biboca. Também emergiram com intensidade os egressos do cativeiro, posto que, enquanto o comércio de cativos fazia prosperar a escravidão, os senhores católicos faziam florescer a alforria, principalmente de mulheres, cujos filhos nasciam livres. A cidade e as paragens rurais viram os libertos e seus descendentes crescerem social e demograficamente, senhoreando escravos e formando famílias de gerações egressas do cativeiro que, amiúde aparentadas com elites locais e comerciantes arrivistas, compunham a paisagem social.
Em 1808, a chegada da família real portuguesa transformou a cidade do Rio de Janeiro em corte da Monarquia Portuguêsa, aprofundando a centralidade do Rio no Império, pois a cidade já havia se tornado capital do Estado do Brasil e sede do Vice-Reinado português na América em 1763. Sua comunidade mercantil sustentou e até ampliou o trato de cativos africanos, inclusive depois da independência do Brasil em 1822, apesar das pressões inglesas pelo fim do negócio. Assim, as transformações vindas com o café no século XIX eram parte de um contínuo processo de expansão econômica vigente desde os idos dos anos 1760, senão antes. O desembarque de cativos africanos prosperou até seu término, em 1850.
Contudo, os quase cinco milhões de cativos aportados nos 300 anos entre 1550 e 1850 não se comparam, em termos de volume num dado espaço de tempo, aos cinco milhões de europeus vindos entre 1870 e 1930 (60 anos). A partir de 1850, muitos chegaram à capitania, fenômeno que perdurou até os anos 1930. Em seu nascer, o século XX republicano brasileiro viu o Rio repleto de imigrantes e de descendentes de escravos nascidos livres. O campesinato brasileiro era predominantemente livre antes mesmo da Abolição, em 1888, uma vez que, enquanto a população livre do país girava ao redor de 8,5 milhões em 1872, os escravos somavam 1,5 milhão. Este quadro de trabalhadores brasileiros livres nas lides agrárias, labutando com imigrantes europeus, adentrou o século seguinte.
Na virada para o século XX, o Rio de Janeiro assistiu à instalação de fábricas de bens não duráveis (têxteis e outras manufaturas.) e reformas em seu espaço urbano, que trouxeram, junto, novas demandas sociais por habitação e transporte. A cidade carioca tinha mais de um milhão de habitantes em 1920 e nela pululavam organizações operárias, mutualistas, e partidos políticos que emergiram das classes operárias. Mas o grosso da população continuava a habitar o meio rural. Apenas nos anos 1970 a população urbana superou a que vivia no campo, em parte devido à imigração de nordestinos.
A partir dos anos 1930-1950, a instalação de indústrias de base sediadas no estado (metalurgia, siderurgia e setor energético) deu caução a fábricas de bens de consumo duráveis, sobretudo o setor automobilístico. O desenvolvimentismo vingou na Ditadura Militar (1964-1985) e na fase da redemocratização. Atualmente, a financeirização do Estado, da distribuição da arrecadação pública, da previdência social, a tributação injustissimamente desigual, ainda que contribuam para a manutenção do Rio como um dos polos econômicos privilegiado do país, nem de longe permitem dizer que se trata de uma sociedade mais igualitária. Em sua história, persistiu a desigualdade, apesar das mudanças seculares na demografia, na sociedade, na economia, na política, nas manifestações religiosas e culturais. Tudo mudou, mas a vergonhosa desigualdade social continua estrutural.
