
A região Sul é sinalizada como uma das com os melhores índices de renda, comparado com outras regiões do Brasil. Segundo dados do IBGE de 2021, seu índice de pobreza é de 15%. Os números de hoje, ainda que contrastem em seu conjunto com o de outras regiões brasileiras, não nos autorizam a pensar a região em separado do restante do país, nem imaginar que esse quadro – comparativamente menos dramático – desliga-se das dinâmicas da pobreza e da desigualdade do Brasil. Ao contrário, a dinâmica histórica mostra que a “prosperidade” de hoje apenas traduz circunstancialmente dinâmicas de desigualdade e assimetrias de poder e recursos que nem sempre existiram, e que continuam em constante transformação. No presente, assim como no passado, dinâmicas migratórias, incentivos estatais, e as transformações produtivas, vão dando forma a novas configurações que desafiam a imagem – cuidadosamente construída pelas elites locais – de um espaço “excepcional” moldado pelo “trabalho” da região “mais branca do país”.
Os atuais estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul foram, sucessivamente, do século XVII ao XVIII, a fronteira dos domínios portugueses meridionais na América. Nos séculos XVI e XVII, seu litoral foi espaço da presença luso-brasileira, interessada na escravização de indígenas e na prospecção do território; no interior, os paulistas atacavam a missões jesuíticas, para escravizar guaranis missionados. O surgimento de rebanhos de gado tornou as planícies do Rio Grande muito atrativas economicamente, para além dos interesses estratégicos dos portugueses rumo ao Rio da Prata.
A exploração do gado intensificou-se no início do século XVIII, impulsionada pela descoberta do ouro nas Minas Gerais. Abriu-se o “caminho das tropas”, que conectou os campos sulinos com os planaltos de Santa Catarina e do Paraná, até a feira de animais de Sorocaba (SP), reforçando as conexões interregionais e a integração por meio do mercado de abastecimento. Gado, mulas e alimentos constituiram essas conexões. Fazendas agropastoris espalharam-se pelos territórios: desde pequenas unidades trabalhadas com mão de obra familiar, até as de grande extensão que combinavam expressiva utilização de mão de obra escravizada com a livre. A mesma época, no oeste do Rio Grande havia a sociedade guarani missioneira, organizada em aldeias, com produção agrícola e pastoril, e que fazia parte do império espanhol. Este espaço começou a ser desarticulado a partir dos ataques de ambas as coroas, na execução do tratado de 1750.
A escravidão africana foi estrutural desde o princípio do povoamento europeu da região. No Rio Grande, na década de 1750, nos Campos de Viamão 45% da população era cativa. Agricultura, pastoreio, produção de charque: todas as atividades produtivas utilizaram-se da escravidão. Em 1798, 37% de sua população era escravizada. No litoral de Santa Catarina, a produção de farinha de mandioca (essencial no abastecimento dos exércitos) e a pesca da baleia também eram realizadas com mão de obra cativa. A presença de africanos e seus descendentes chegou a cerca de 30% da população nas primeiras décadas do século XIX e a escravidão não deixou de ser marcante em Santa Catarina, onde a pequena posse escrava era disseminada e determinante para as várias atividades econômicas. Já no Paraná (pertencente à capitania de São Paulo até 1853) a escravização de indígenas sob a forma da administração particular foi significativa em Curitiba, entre 1730 e 1760. A partir de então houve a substituição por africanos, com a constituição de escravarias de tamanhos variados especialmente nos planaltos da rota dos tropeiros.
No Rio Grande do Sul, o século XIX inicia-se com a expansão das charqueadas, que produziam carne-seca, mercadoria fundamental para o abastecimento das plantations açucareira e cafeeira, das populações pobres das grandes cidades e dos navios negreiros. Reunindo os maiores contingentes de mão de obra escravizada da província, elas transformaram os charqueadores na elite mais rica da região.
Todos os estados da região receberam contingentes expressivos de novos migrantes europeus, tanto de iniciativa oficial quanto de colônias promovidas por particulares. Ao Rio Grande do Sul e Santa Catarina, na década de 1820, chegaram alemães e, a partir de 1870, italianos. No Paraná isso ocorreu com mais intensidade a partir de 188. A presença dessas colônias propiciaram a expansão demográfica e o aumento da produção agrícola de alimentos, numa estrutura baseada em pequenas propriedades de caráter familiar. Como tem demonstrado uma recente historiografia, a desigualdade econômica não esteve ausente dessas áreas e mesmo a escravidão marcou presença em algumas delas.
Por sua vez, a grande área de ocupação tradicional dos povos Jê Meridional no norte do Rio Grande do Sul sofreu cada vez mais com invasões e apropriação privada por parte de brasileiros e da instalação de colônias com imigrantes europeus. À semelhança do que ocorreu no centro e oeste de Santa Catarina e do Paraná, a despossessão e resistência desses povos, vem sendo demonstrada. Nesses planaltos, houve, ainda, o lento desenvolvimento de uma população “cabocla”, composta por indígenas, luso-brasileiros, africanos e, mais tarde, imigrantes europeus pauperizados, e que definiu a longa história de ocupação violenta e conflitos territoriais e fronteiriços que marcarão aquele espaço.
O crescimento econômico dos séculos XX e XXI, com café (no Paraná), soja, gado, trigo, extração intensiva de madeira e indústria, e a radicalização do agronegócio ligam-se à desigualdade contemporânea.
