
Desde que foi consolidada a proposta de divisão regional do Brasil pelo IBGE, em 1970, a região Nordeste compõe-se de nove estados da federação: Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Atualmente, a região é a segunda mais populosa do Brasil, com mais de 50 milhões de habitantes, e possui o terceiro maior PIB do país. Apesar disso, é também a região com os maiores índices de pobreza do Brasil. O que faz com que a região concentre tantas desigualdades? Para responder a essa pergunta, é preciso acompanhar a formação social e histórica do Nordeste na longa duração, atentando para suas especificidades no cenário nacional, mas, igualmente, para suas assimetrias internas.
Na verdade, importa sublinhar que diferentes “Brasis” estão integrados à atual região Nordeste. Esta diversidade se expressa nas várias configurações sociais e econômicas que produzem os índices de desigualdade e de distribuição étnico-racial da população nordestina. Nestes “brasis”, incluem-se as zonas de colonização mais antigas da América portuguesa, tradicionalmente associadas à vocação açucareira. Pernambuco e Bahia despontam como expoentes mais expressivos de sociedades que, acumulando sucessos em função de articulações com povos indígenas, como os Potiguara, Tabajara, Caeté, entre outros, encontraram na produção de açúcar um de seus pilares fundamentais.
O mundo do açúcar é, por excelência, um grande laboratório das desigualdades no Brasil, posto que foi configurado na mudança da política portuguesa para com os povos originários e baseado na conquista, na expropriação de terras indígenas, na sua redistribuição entre os conquistadores e na introdução de uma cultura agrícola alheia ao solo americano, trabalhada com amplo recurso à mão de obra escravizada, indígena e africana.
Da mesma forma, este mundo foi construído com fortes conexões ao tráfico transatlântico de pessoas escravizadas que articulava, sobretudo, o Recife e Salvador à Angola e à Costa da Mina. A intensidade do tráfico marca indelevelmente a composição étnica e racial do território. Por outro lado, a sustentação deste mundo açucareiro convive com outros mundos, marcados por zonas menos abastadas, desprovidas de grandes portos e comunidades mercantis, como Alagoas, Rio Grande, Ceará, Piauí, Ilhéus e Porto Seguro, que se organizaram ao redor da produção de gêneros de subsistência como a farinha, o peixe e o gado. Nestas zonas, predomina uma força de trabalho mais heterogênea, com agricultores livres (brancos e negros) e maior recurso à mão de obra indígena. Paralelamente ao mundo do açúcar e da subsistência, outro mundo, e outra ordem de desigualdades, se plasma nos sertões, sobretudo por meio de uma economia fundada na pecuária e, posteriormente, no algodão, que organiza essas territorialidades através de rios e ribeiras, como o São Francisco, o Itapicuru, o Apodi e o Açu.
Em consonância com o estabelecimento colonial no litoral, o avanço luso para os sertões, ao longo do século XVII, adentrou territórios habitados por povos indígenas que desfrutavam de certa autonomia. Enfrentando muita resistência e contando com o apoio de algumas lideranças nativas, missionários, bandeirantes e sesmeiros estabeleceram aldeias missionárias e fazendas. Aqui, riqueza e pobreza são, muitas vezes, definidas pelo acesso às porções de terra mais férteis e irrigadas, ao mesmo tempo em que as políticas de distribuição de terras favoreceram a formação de latifúndios, de que são exemplos os “pequenos mundos” da Casa da Torre, da Casa da Ponte e dos Oliveira Ledo, grandes aristocracias agrárias, e rentistas, da América lusa.
As mudanças políticas e econômicas de meados do século XVIII e a migração da corte portuguesa em 1808 foram processos que consolidaram e aprofundaram as assimetrias regionais. Questões como o aumento de tributação, quebra do pacto constitucionalista, diferenças internas às elites e a formação de partidos políticos suscitaram revoltas e revoluções, nas quais houve participação de pessoas escravizadas, libertas, indígenas e pobres em geral. Os movimentos armados despoletados pelas elites, ancorados no ideário conceitual em transformação do período, não implicaram o fim da escravidão nem a redistribuição de terras. Tais mudanças não estavam presentes naquele horizonte político, o que contribuiu para agudizar as desigualdades internas. Apesar de secundárias no arranjo nacional, províncias como Bahia e Pernambuco mantiveram uma presença política contundente em ministérios, no parlamento e, inclusive, na Regência.
Apesar de possuir a primeira província a abolir a escravidão, o Nordeste continuou sendo um importante destino do comércio de pessoas, convertido em ilegal em 1831. O tráfico interprovincial e o fim iminente da instituição escravista não significaram uma derrocada econômica, posto que, em diferentes proporções, as antigas e as novas culturas de exportação continuaram se valendo, em certa medida, da mão de obra nacional.
As dicotomias inerentes à desigualdade social permaneceram evidentes no Nordeste ao final do século XIX e durante o século XX, manifestando-se em movimentos de destaque e considerável complexidade, tais como: o cangaço, protagonizado por grupos sertanejos que, diante de um cenário caracterizado por secas recorrentes, pobreza extrema e marcante disparidade social, adotavam um modo de vida itinerante pela caatinga e, frequentemente, realizavam saques e confrontos com forças policiais e proprietários rurais; experiências coletivistas, como Canudos na Bahia ou o Caldeirão de Santa Cruz do Deserto no Ceará; e as Ligas Camponesas, entidades sociais atuantes no contexto rural, principalmente entre as décadas de 1950 e 1960. A fundação da primeira Liga Camponesa, em 1955, no Engenho Galileia (Zona da Mata pernambucana), é reconhecida como um marco inovador nas formas de associação rural. Tais fenômenos refletem e evidenciam a persistente desigualdade social presente na região Nordeste.
